Pular para o conteúdo

planejamento

Roteiro para orçamento de obras

  • obras
  • custos
  • cronograma

Para um orçamento confiável é preciso integrar o planejamento (tempo) com a engenharia de custos (valor). A ordem importa: cada etapa consome o que a anterior produziu, e uma delas em particular sustenta o resto.

Cada etapa abaixo traz o que entra, o que se faz e o que sai — porque é a saída de uma que vira a entrada da seguinte.

1. Diagnóstico e definição

Entra: projetos — arquitetônico, estrutural, instalações —, edital de licitação ou memorial descritivo, com especificações técnicas e critérios de medição e pagamento.

Faz: leitura detalhada dos projetos, das especificações e dos condicionantes de prazo e qualidade. Visita técnica ao local para levantar condição do terreno, acessos, logística, disponibilidade de água e energia, e vizinhança.

Sai: relatório de visita técnica, documentando condições locais e interferências, com fotos e contatos úteis — mais o entendimento claro do escopo.

2. Estruturação do escopo

Entra: projetos, especificações técnicas, relatório de visita e declaração de escopo.

Faz: decomposição lógica e hierárquica do escopo total em pacotes de trabalho menores, gerenciáveis e mensuráveis — infraestrutura, supraestrutura, acabamentos. Essa estrutura é o esqueleto do planejamento e da planilha orçamentária.

Sai: EAP (Estrutura Analítica do Projeto) e o dicionário da EAP, detalhando o que está incluso em cada pacote.

3. Planejamento e cronograma

Entra: EAP, projetos e o conhecimento das metodologias executivas — o plano de ataque da obra.

Faz: definir durações, estabelecer as precedências lógicas do sequenciamento construtivo e montar o diagrama de rede para identificar o caminho crítico, as tarefas que não podem atrasar. É o que dimensiona equipes e equipamentos e calcula a duração da obra — que por sua vez determina o custo de manter o canteiro.

Sai: cronograma físico (gráfico de Gantt), quadro duração-recursos e o caminho crítico (CPM).

4. Levantamento de quantitativos

Entra: projetos detalhados e a EAP aprovada.

Faz: medição e cálculo das quantidades de material e serviço de cada item da EAP — área, volume, comprimento, unidade —, respeitando os critérios de medição específicos e usando formulário padronizado. Etapa crítica: erro aqui gera prejuízo grande.

Sai: memória de cálculo de quantitativos e a planilha de quantidades, a lista de serviços.

5. Composição de custos diretos

Entra: planilha de quantidades, projetos, especificação de materiais, índices de produtividade — SINAPI, TCPO ou base própria — e cotações de mercado.

Faz: definir o custo unitário de cada serviço. Envolve cotar insumos (material, mão de obra, equipamento), aplicar os encargos sociais em sentido restrito sobre a hora trabalhada, e montar as composições com os coeficientes de consumo e produtividade. Quantidade × custo unitário dá o custo direto total.

Sai: CPUs (Composições de Preços Unitários), relatório de cotação e a planilha de custos diretos — o orçamento analítico do custo direto.

6. Custos indiretos e acessórios

Entra: cronograma físico, plano de ataque, planilha de custos diretos, estrutura administrativa da construtora e exigências contratuais.

Faz: calcular a despesa que não está diretamente associada ao serviço de campo mas é necessária para executar e gerir a obra. Inclui dimensionar e orçar o canteiro, mobilização e desmobilização, e a administração local — salário da equipe técnica e de apoio, contas de consumo, seguros, veículos —, tudo dependente do prazo do cronograma. Abrange também a taxa de administração central, o rateio das despesas da sede, e o custo financeiro.

Sai: planilha de custos indiretos e a memória de cálculo do rateio da administração central e do custo financeiro.

7. BDI e impostos

Entra: custos diretos e indiretos calculados, legislação tributária vigente, alíquotas de PIS, COFINS e ISS, e a política de lucratividade da empresa.

Faz: calcular o BDI (Benefícios e Despesas Indiretas), o percentual aplicado sobre os custos diretos para embutir despesas indiretas, impostos, risco e imprevisto, e a margem de lucro — formando o preço de venda. A taxa de encargos sociais também é consolidada e justificada aqui.

Sai: demonstrativo de cálculo do BDI, com sua memória, e o quadro de discriminação dos encargos sociais.

8. Fechamento, análise e curva ABC

Entra: planilha orçamentária completa, cronograma físico, CPUs e o demonstrativo do BDI.

Faz: revisão final e análise de consistência. Aplicar o BDI sobre os custos diretos para chegar ao preço. Gerar os relatórios gerenciais — a curva ABC de insumos e serviços, que mostra onde a negociação vale a pena — e o cronograma físico-financeiro, distribuindo o orçamento ao longo do tempo. É nesta fase que podem ocorrer estratégias de desbalanceamento de planilha, quando aplicáveis e permitidas.

Sai: orçamento final, sintético e analítico, curva ABC de insumos e de serviços, e o cronograma físico-financeiro — o fluxo de caixa.

A lógica em uma linha

Projetos → EAP → Cronograma → Quantitativos → Preços → BDI → Orçamento final

O ponto que sustenta o resto é a etapa 3. Pulando o cronograma, o custo indireto da etapa 6 vira estimativa sem base real — chute. É um dos maiores motivos de prejuízo em construtora: não se erra o preço do concreto, erra-se quantos meses se vai pagar o engenheiro.

Modelos

Os modelos que uso em cada etapa estão numa pasta de templates de orçamento na minha nuvem.


Referências:

  • MATTOS, Aldo Dórea. Planejamento e controle de obras. São Paulo: Pini, 2010.
  • MATTOS, Aldo Dórea. Como preparar orçamentos de obras. São Paulo: Pini, 2006.
  • TISAKA, Maçahiko. Orçamento na construção civil: consultoria, projeto e execução. São Paulo: Pini, 2006.
  • DIAS, Paulo Roberto Vilela. Engenharia de custos: uma metodologia de orçamentação para obras civis.